domingo, 13 de agosto de 2000

Crónicas dos dias de Leicester I

O "Abbey Park Show Festival" decorreu ontem, todo o sábado, no maior parque de Leicester. Este festival anual junta num só dia para cima de 30.000 pessoas e , entre eles, lá estivemos portugueses, estónios e belgas, a viver de perto um ambiente mais próprio de woodstock. Para além da animação de 5 palcos com o que de melhor existe na pop britânica, de milhentas diversões como na festa das Almas da Areosa mas muito maior e, a cada metro, uma roulotte de hambúrguer e batatas fritas, coube a Leicester um dia de sol escaldante. Em Portugal não estaria tão quente. A quase "desinteria" colectiva dos "fast foods" acumulados, mas os caminhos de ida e volta para o Abbet Park (uma hora a pé para cada lado) deixou KO toda a população da Youth House. Já "em casa", ao serão, houve mãos arduamente disputadas, reconhecidas pelos poderes das suas massagens. Costas recuperadas de sestas na relva, a noite segui, como se nada tivesse acontecido.
Portugueses e companhia voltaram a marcar a noite de Leicester.

Os dias de Leicester, para nós nada dependem do cinzento do tempo que faz (que até nem é tanto como se pinta). Mike e a sua equipa sonharam com a Youth House e aqui nos têm, a nós portugueses, aos belgas (os mais próximos do sentir latino) e aos estónios (esbeltas e bárbaros), tal como têm, todo o ano, a companhia de dezenas de comitivas de jovens oriundos de todo os estados membros da UE, ao abrigo deste ou daquele programa, no âmbito deste ou daquele intercâmbio. Tudo acontece na Youth House. É da Youth House que envio esta crónica. O tempo dos dias, perdemos-lhe sempre a conta, entre as incontáveis actividades Em inglês se fala! Invariavelmente, os instrumentos saem do saco e há por aqui música como nunca se ouviu. para Águeda levaremos um sonho mais. Daqueles que nos habituámos já a pensar que se concretizam. Vem cá, Europa!

Da Youth House, já sabemos, um complexo moderno construído há dois anos, cuja missão primeira é continuamente receber jovens da UE e desenvolver projectos multi-nacionais na área da música com a intervenção das novas tecnologias. Paredes meias com o corredor dos alojamentos, um senhor estúdio de gravação. Ao que se vai sabendo, aqui gravaram já algumas bandas pop-rock portuguesas. Aliás, é bem visível por toda a Youth House, a omnipresença portuguesa, num enorme poster do Festival Mundial da Juventude 98 em Lisboa e em inúmeras fotos expostas de gente que dizem ser portugueses, ora posados por estas bandas, ora com a presença destes ingleses em Évora, no Pinhal Novo ou em Lisboa.

O que eles gostam de portugueses confirmou-e-me mquando perguntei ao Mike, entre copos no Shed Club, porquê o convite aos portuguesas. O Paulo Brites estivera aqui em Novembro, com vinte representantes de outros países. Deste leque saíram convites para a Grécia (que não veio), Estónia, Bélgica e Portugal, para trazerem, agora sim, uma comitiva alargada e, sob o signo da música, concretizarem um projecto multi-nacional. Mike não precisava ter respondido, apesar de o ter feito (eu é que não pesquei tudo o que ele disse): apontou, com um sorriso encantado, para o Joca e para o Bruno que, a essa hora tocavam com o "one man show" contratado pela casa. Ainda assim, apanhei-lhe um sentido "I like the portuguese people". Essa noite no Shed (quinta-feira passada) foi de arromba, com todos os nove portugueses a brilhar. AO ponto de Mr. Rodrigo, professor catedrático da Universidade de Leicester e assiduo cliente do Club, reclamar ter sido a sua melhor noite no Shed, o que exprimiu em português quase correcto.

Excepção feita a essa noite no Shed (cujas torneiras fecharam tradissimo, vá-se lá saber porquês), todas as noites vemos os bares fecharem o balcão às onze da noite. Ao fim-de-semana, fecham especialmente tarde...às onze e vinte. Mesquinhos estes ingleses. O que não nos tem impedido de prolongar a "paraa"poeruguesa, Youyh House adentro, com serenatas toda a noite, batendo todo o sector feminino, porta sim porta sim. Ao fim destes cinco dias, este tipo de movimentação é já ritual e tem cada vez mais aderentes. Até à data, também já os belgas partilham os mesmos acordes e o mesmo sentido estratégico, com Vito, um filho de emigrantes italianos na Bélgica - à cabeça.
Quando está tudo acordado, vamos para a porta da Youth House, tocar para o quente destas noites de Leicester. A cidade não está em polvorosa, mas sente-se aqui e ali o reboliço satisfeito de gente de Águeda na rua.

domingo, 28 de maio de 2000

Que bem se consertou!

Das tuas mãos divinas de Poeta
Herdei a lira que não sei tanger.
in Ode a Orfeu
(Miguel Torga)

Já Conserto. Maio 26. Espaço d'Orfeu, Águeda.
Lembrou-se a d'Orfeu de consertar uma casa com palavras de poetas e notas de músicos e gestos de dança. Assim com'assim, onde não chega a prata, revista-se de arte um espaço antigo, que ela fica logo a cheirar a novo, com aquele sorriso de gente sem rugas. E quem como eu está já farto delas, fica de alma renovada em folha.
Espreitei a tarde na d'Orfeu. Misturavam-se poemas com notas de música, cartazes, esfregões, tochas, pressa, sabões, flores, ansiedade, velas, máscaras, cultura e logo à noite?, momentos, tesouras, fios, põe-se o Torga na entrada, computadores programas, deixe ver que eu limpo, queremos ver o Torga a falar no bard'O, que lindo está o bard'O!, isto aqui tem dedo de quem sabe, já são oito horas?
Às 21, quando a noite já espantava o dia, juntam-se os artistas na rua, à espera de um mago. Ele chega à varanda e deixa cair novidades. Uma a uma, para que ninguém se empanturre de repente. Os espectáculos iam começar, respeitável público.
Vou seguindo artistas e público e por cima de mim chove já um poema, clamado e rufado do varandim do sótão. São o Bruno e o Bitocas a dizer e a batucar Craveirinha, ao lusco-fusco. A Castilho arranca assim uma página de Moçambique e larga-a no Já Conserto. E lá vão os espectadores escada a cima sacudir as palavras da selva africana e a testemunhar um encontro de instrumentos e de tocadores, que se saúdam com o Malhão e tanta alegria, tanta, que escorre para o público espantado. E este aí vai, a demandar salas e sotão, à procura da surpresa, que ora lhes sai no Roque do Lixo, ora na dança da Portela, ora na arte de dizer do Grupo Poético de Aveiro, orna nos clarinetes do Conservatório de Música de Águeda, ora na mestria de Ricardo, ora na palavra de Antero cantada por Luís Fernandes, ora na Festa dos Biombos, ora na beleza de Raquel do Cardume, que mais parecia a Eurídice perdida por Orfeu, ora na simpatia da Mafalda e do Paulo, que se ocupam do chá e dos biscoitos da assistência, ora num arlequim que, ainda da Portela, nos traz a arte de brincar em todo o tempo.
Aguarda o bard'O a sua vez, todo enfeitado de velas, heras e flores brancas e dos Momentos do Zé. E é a vez de Alexandra trazer novamente a poesia da Castilho.
Anda por ali uma criança de Moçambique, que a Cheia boquejou, mas de tão cheia poupou. Queda-se o público, que a voz da artista se modula no silêncio e na música de Luís Fernandes. E cresce a poesia no bard'O. Torga enobrece uma parede, a evocar Orfeu, o poeta que encantava árvores e bestas, com a sua lira. HáCáEcoHá prende-nos, envolve-nos até nos lenga-lenga, e seguimos os gestos, as perguntas, os risos, o emaranhado destes trovadores de poder encantatório da palavra. Guilherme Guerra continua a dizer poesia em nota altíssima. Abana, agride, choca , enternece, apaixona e grita-nos aos ouvidos. Mas ficávamos a ouvi-lo toda a noite. Agora são músicas da Castilho e oferecem-nos petites fleurs a toda a gente. Como as margaridas, que se espetaram numa tocha e nos amaciam a turbulência.
E no fim, é a festa tocada em saxofone, a guitarra , a bombo, a flauta, a palmas, a cantigas, a terminar uma noite em que escolas se juntaram num jardim. Pela mão de Orfeu.
Que ninguém se atreva a duvidar! Ali, na venda Nova, continua Orfeu a encantar.

Odete Ferreira

sexta-feira, 26 de maio de 2000

Já Conserto

Espaço d'Orfeu, 26 Maio 2000

Foram rodos de gente a seguir jardim acima e, uma vez em chão que nasce, deixaram aventurar-se por conta dos riscos e rabiscos do Já Conserto.
Espontânea e definitivamente se instalaram sons na sala dos instrumentos, paredes meias com um corredor não raro congestionado, enquanto por cima se ouviam passos de muitos no sótão, também eles por certo à procura de tudo e de nada; terão encontrado tudo aquilo que não se acha. À mesma hora, o pátio era auditório tanto daquilo que acontecia no alpendre como do que se vislumbrava à meia-luz na varanda do sótão, lá em cima imponente. O bard'O, em início de carreira, desde as nove e meia não mais vazou de um público nem culto nem leigo, antes pelo contrário.
Com todo o público compartilharam o Espaço d'Orfeu numa única noite, tetos do Conservatório de Música de Águeda, poesos do Grupo Poético de Aveiro e possessas de cajueiros da Escola Secundária Marques de Castilho, pinturiadads do Qua'Arte mai-los seus pupilos musicários ora em formato jotapêé ora numa d'improvício, para além de Máscaras Descaradas, Cardumes, HáCáEcoHás, Biombos da Festa e outros que tais, vulgo d'Orfeu.
Tão velhas paredes transpiraram, tudo em honra das novas aragens que lhe amaciam a idade da pedra. São ares de uma cultura nova e contagiante, daquela que há cinco anos poisou por aqui e que, pelso vistos, lançou antídotos aos instalados comodismos.

segunda-feira, 17 de maio de 1999

Estágio "Caminhos para a Construção de Personagens"

A d'Orfeu vai promover a Estágio de Teatro "Caminhos para a Construção de Personagens", orientado por Victor Valente, nos próximos dias 31 de Maio, 1 e 2 de Junho. As inscrições decorrem até dia 26 deste mês.

Esta acção cujas sessões decorrerão em Águeda, nas Cavalariças da Casa do Adro, entre as 21 e as 23 horas, pretende dotar os participantes de noções e práticas ao nível da construção e interpretação de personagens, através de jogos de comunicação e percepção.
Concretizadas as primeiras experiências de formação teatral, com o Estágio de Iniciação de Técnicas do Actor, ministrado pelo ACTO - Instituto de Arte Dramática (em Maio de 1998) e com o Estágio de Teatro e Pantomina, por Stephen Jonhston (em Fevereiro deste ano), a d'Orfeu continua a apostar na realização regular deste tipo de iniciativas, com vista a um permanente fomento da prátia artistica, junto da comunidade local, através de uma formação qualificada na área do teatro.
O Estágio "Caminhos para a Construção de Personagens" é especialmente dirigido a estudantes, tanto do ensino secundário como superior; a jovens profissionais, com relevância para as profissões artísticas, pedagógicas e terapêuticas; bem como a elementos de grupos de teatro amador.
As inscrições decorrem até 26 de Maio na d'Orfeu - Associação Cultural ou pelo telefone 034 603 164.

terça-feira, 23 de março de 1999

"Cowboio" passa em Recardães

pelo Trigo Limpo Teatro ACERT
Recardães, Auditório do Centreo Comunitário
Sábado, 10 de Abril de 1999, 21h30

Iniciativa conjunta
d'Orfeu - Associação Cultural
Centro Comunitário de Recardães


"Cowboio", pelo Trigo Limpo Teatro ACERT, é um espectáculo cinematográfico e loucomotivado em Johnny Guitar. Numa iniciativa da d'Orfeu em parceria com o Centro Comunitário de Recardães, Aquela companhia - cuja actividade de produção teatral ao conhecimento do grande público através da Máquina de Peregrinar na Expo'98 - apresenta-se no concelho de Águeda com uma das suas mais recentes criações.

O Cowboio "passa" em Recardães a 10 de Abril, pelas 21h30, numa iniciativa da d'Orfeu em parceria com o Centro Comunitário de Recardães. Para além de reforçar a dinâmica cultural com que Águeda vem sendo identificada junto dos mais diversos públicos, a iniciativa tem a particularidade de estabelecer o acesso a uma cultura de espectáculos de qualidade junto a uma comunidade exterior à sede do concelho.
A apresentação do "Cowboio" em Águeda(!), vem validar as recentes relações da d'Orfeu com a ACERT, desde a participação de José Rui Martins do Trigo Limpo, no Siminário "Música no Teatro, Teatro na Música", realizado em Janeiro passado em Águeda. Neste ambito, apassagem de uma das masi prestigiadas companhias teatrais portuguesas pelo concelho, não deverá ser, concerteza, uma acção avulsa; no entanto, é caso para não perder o "Cowboio".

COWBOIO
"Cowboio" é um espectáculo cinematográfico, loucamotivado em Johnny Guitar. Nesta personagem, revive-se um western mítico protagonizado por mulheres que, nos anos 50, recebeu péssimas criticas em contraste um excelente acolhimento popular.
Este duelo feminino é ponto de partida para jogar com o melodrama desde o ponto de vista do divertimento, com o cinema desde o teatro, com o texto desde o pretexto, com a simplicidade desde a reciclagem.
De outras "películas! já se conhecem as terras do Caramulo, aquele amável e pacífico bando de Tondela e já se sabe que o Trigo não é Limpo. Mas vindo de onde vem, o disparo é certeiro.
A chegada do cowboio está pronta.

sexta-feira, 1 de janeiro de 1999

agenda HáCáEcoHá

Óh, o que é que há aqui!?
Há cá eco no cantinho
18 Março 99
XX aniversário do "Cantinho do Nicolau"
Espinho

Pelas Lenga Lengas Lentas
Abril 99
Oficina Páscoa 99
d'Orfeu
Águeda

É o eco que há cá.
No jardim faz-se assim
23 Abril 99
25º Aniversário do 25 de Abril
Instituto Português da Juventude
Pavilhão Rosa Mota
Porto

Já Concerto
8 Maio 99
Quas'arte - Clube de Artes e Ideias
Águeda

O quê!? Há eco aqui!?
Aparições no telhado
13 Maio 99
O dia da criação artística - educar os sentidos
Esc. Poeta Manuel da Silva Gaio
Coimbra

Há cá eco há.
Aparições no bosque
28 Maio 99
Casa de Serralves
Arquitectos do Parque 99
Porto
As vozes,
A borracha
Eis posição
Julho 99
Festival "O Gesto Orelhudo"
d'Orfeu
Águeda

O movimento,
Jogo Animado
2000
Noite das palavras
Espaço fala só
Lisboa

As lenga lengas
Bem-vindos todos
7 Janeiro 2001
Seminário Os CantAutores
d'Orfeu
Águeda

E a imaginação.


domingo, 24 de maio de 1998

TECA

Discoteca, biblioteca, videoteca e software de temática musical universal

A optimização permanente deste serviço vem estabelecendo, de forma sustentada, o fomento da investigação e formação artísticas inerente ao edifício da actividade d'Orfeu. O actual acervo com aproximadamente 1800 títulos disponíveis - maioritariamente discografia - resulta, na maior parte, da junção de vários espólios pessoais, sendo que em cerca de seis anos de actividade, é muito recente a disponibilidade para um investimento declarado na valorização do acervo da Teca, no que toca à aquisição. Houve antes o incremento de uma efectiva disponibilidade ao nível de recursos humanos e tecnológicos para optimizar todo o dispositivo documental (físico e informático) e a gestão da documentação pessoal, essa sempre em crescimento a expensas privadas da iniciativa individual, garantindo hoje a d'Orfeu um estado operacional da Teca que forçosamente pressupões uma definitiva aposta na valorização em títulos documentais.

segunda-feira, 23 de setembro de 1996

TOCATA - Formação em músicas tradicionais

Não havia e não se adivinhava formação musical na área das músicas tradicionais nas escolas de música portuguesas. Senão vejamos:
  1. No ensino artístico (conservatórios, academias de músicas, escolas profissionais), a formação é claramente vocacionada para a música erudita;
  2. No ensino genérico (2º ciclo do ensino básico), a temática das músicas tradicionais é abordada no programa, mas há défice de formação especializada dos professores nessa área;
  3. No ensino de iniciativa privada, há objectivos comerciais, predominando a abordagem das formas musicais de massas;
  4. No ensino de integração associativa, como nas bandas filarmónicas por exemplo, a formação é unicamente direccionada para o tipo de repertório a interpretar; nos grupos folclóricos, os músicos, na sua esmagadora maioria, fazem a sua aprendizagem por transmissão oral.
No contexto nacional actual, os músicos que tocam música tradicional tiveram a sua formação forçosamente noutras áreas. Assim, o curso "Tocata - Formação em Músicas Tradicionais" assume um carácter inédito, atendendo à lacuna deste tipo de formação em Portugal. Pretende conceder-se formação específica e qualificada nesta área, valorizando-se as músicas tradicionais num quadro de complementariedade entre os diversos géneros musicais assumindo a convivência, neste tipo de formação, de instrumentos, tradicionais com outros convencionalmente não tradicionais. Em funcionamento permanente na d'Orfeu desde Setembro de 1995, ministra formação a uma média anual de 50 alunos, dos quais se vem constituindo o elenco da d'Orfeu no domínio da criação artística. A d'Orfeu garante, com o curso de Tocata, o compromisso pedagógico de que não deve nunca abdicar, enquanto estrutura potenciadora de hábitos artísticos e culturais em Águeda.

O curso "Tocata - Formação em Músicas Tradicionais" resulta da interacção de duas disciplinas nas quais, através de um estudo acompanhado, se visa estimular o auto-didatismo e a atitude criativa, dignificando a cultura de raiz tradicional. Cada aluno tem uma carga horária de duas horas semanais, correspondentes às disciplinas GAITA* e TOCATA**, que funcionam de forma interactiva, no domínio dos conteúdos e das práticas, trabalhando-se questões como técnica instrumental, afinação, ritmo, harmonia, notação, acústica, organologia, audição comparativa, funções instrumentais, constituição de repertório, noções de palco e de estúdio, música e movimento, balanço, expressão musical e improviso.

* GAITA: aula individual para desenvolvimento da técnica instrumental através de prática sistemática e programada.
** TOCATA: aula prática de música de conjunto e constituição de repertório, em formato de tocata colectiva.